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Música

Memórias, Crônicas e Declarações de Amor

Memórias, Crônicas e Declarações de Amor

ANO
2000

FICHA TÉCNICA

Produzido por Arto Lindsay e Marisa Monte

Direção Executiva // Leonardo Netto 

Ass. de Produção (RJ) // Suely Aguiar 

Estúdios de Gravação Ilha dos Sapos (Salvador)  

Técnico // Patrick Dillett 

Técnico de pro-tools e Ass. de Gravação // Duda Silveira 

Ass. de Produção// Alessandra Barreto Roadies Bira, Tiara, Pipinha e Bhia 

Mega (RJ):

Técnico // Márcio Gama  

Ass. de Gravação // Marcito Vianna

Roadie // Márcio Barros 

Lá Em Baixo (RJ):

Técnico Márcio Gama  

Pro-tools e Edição Digital Florência Saravia 

Ass. de Produção Alessandra Barreto

Roadie Márcio Barros Magic Shop, Sear Studios e Kampo  

Studio (New York):

Técnico // Patrick Dillett  

Ass. de Gravação Reto Peter (Magic Shop), Tom Schick (Sear) e Caleb Lambert (Kampo)

Gravações adicionais New York // Tom Durak, Tim Latham, Caleb Lambert

Mixado por Patrick Dillett

Masterizado por Ted Jensen para Sterling Sound (New York) 

Fotos capa, contracapa e encarte // Marisa Monte 

Ass. de Fotografia // Marcelo Olinto 

Cifras // Fernando Caneca


SOBRE O ÁLBUM


“O amor, quando verdadeiro, quer ser proclamado aos quatro ventos, quer ser cantado com a alma e o coração. Por isso o maior elogio que se fez ao amor nas Escrituras judeu-cristãs se chama "Cântico dos Cânticos". O místico São João da Cruz que experimentou o amor radical escreveu as ‘Canções de Amor entre a Alma e Deus’. Aí canta esta verdade universal: ‘olha que a doença de amor não se cura senão pela presença e a figura’.


O amor não pode ser platônico, ele quer sentir a presença e quer tocar a figura. Ele é a exaltação a ponto de levar a ‘fazer um samba sobre o infinito’ e ser a ‘palavra que liberta’. Mas é também o singelo gesto de quem confessa ‘toda vez que saio me preparo para talvez te ver’ porque ’no peito há vazio, há falta de alguém’. É o amor que torna as pessoas importantes, quer dizer, que faz com que nos importemos com a pessoa amada, encontrada ‘no meio de tanta gente’. Mas se o amor não encontra amor, "a vida para mim terminou", mais ainda "é como se perder de Deus". Mas se o amor encontra outro amor sabe ‘isso me acalma, me acolhe a alma, isso me ajuda a viver’.”


- Leonardo Boff


 


Paixão eterna de minha vida


“O amor romântico é uma invenção artificial e contrária à verdadeira natureza humana. Ouvimos isto o tempo todo hoje em dia e, quanto mais velhos ficamos, mais pensamos acreditar que é assim mesmo. Olhar em torno às vezes também confirma a crença. Existirá, sim, paixão, exacerbação temporária dos sentidos e da razão, mas amor mesmo, do jeito que equivocadamente existia para as gerações de vagos tempos antigos, é ilusa, é no mínimo tentativa voluntarista e neurótica de enquadrar o mundo onde ele não pode encaixar-se. Os felizes para sempre acabaram, a entrega, a renúncia, o arrebatamento, o enlevo perene se foram para nunca mais voltar.


Ah, que coisa chata ficar filosófico ou, pior ainda, ter delírios psicanalíticos, quando se fala em amor. Vale a pena discutir a persistência do amor, não é empresa vã questionar o amor, alguém que sabe da indignação sobre a natureza humana, quando se está encegueirado de amor? Claro que não. Lembro uma história que de vez em quando conto, sobre o dia que um velho amigo meu entrou de surpresa em meu escritório e me encontrou soterrado sob resmas de papel embaralhadas e a ponto de arrepanhar tudo e socá-lo na cesta do lixo. Que diabo estava eu fazendo ali - queixei-me -, escrevendo uma história que nunca havia acontecido, povoada de gente que nunca tinha vivido, que loucura absurda era aquela? Ele respondeu que não sabia, mas que de uma coisa estava certo. Desde que o homem aprendeu a falar, mesmo bem antes de conceber a escrita, sempre houve alguém para contar histórias e outros querendo, ou até precisando, ouvir essas histórias. Portanto, disse ele, não fabrique perguntas inúteis, não adianta perguntar nada. Alguém sempre estará fazendo o que você está fazendo agora e, portanto, para alguma coisa há de servir; sente aí e escreva, cumpra sua sina sem buscar respostas que nunca vai ter.


E me lembro também de quando, apaixonado pela primeira vez e cruelmente ignorado, me via em casa, sentado na poltrona grande do gabinete de meu pai, em devaneios sonhadores entremeados de soluços, tudo na vida, tudo o que me interessava, encarnado na figura loura de sorriso claro que não me queria, que não sabia da grandeza de meu amor, jamais por impossível, sentido assim por qualquer outra criatura, não tinha vontade nem de saber como seríamos felizes juntos, como era puro o meu coração e absoluta a minha devoção. Havia uma música com o nome dela e eu punha o disco na vitrola uma vez atrás da outra e , em verdade lhes digo, nunca ninguém sofreu de amor assim.


Com exceção de todo mundo, é claro. Pois quem não passou por isso? Quem não perdeu o fôlego, não sentiu o corpo inteiro latejar, a cabeça flutuar desgovernada, a paisagem se iluminar e tudo mais perder a importância, às vezes somente por causa de um olhar, uma palavra, um sorriso, um toque leve de mão? Quem não sentiu as pernas desfalecendo e a alma tresvariada, no instante de um primeiro beijo? E quem não se julgou o mais infeliz dos seres, transmutado em raiva, despeito, lágrimas e tristeza inextinguível, por causa de um aceno indiferente, um dito condescendente, uma traição sem remédio, uma despedida sem retorno?


Todos já se sentiram assim, nenhum compreendeu. Se alguém tivesse realmente compreendido, aí, de fato, não haveria mais amor romântico. Mas há. Imperfeito como a condição humana, passageiro como a vida, mas há. O que meu amigo disse sobre contar histórias pode ser dito do amor. Não adianta fazer perguntas, procurar qualificá-lo, tentar desvelar seus segredos, acusá-lo de falso e enganador. Ele apenas é. E por isso, não só entre os gregos, mas em toda parte, sempre houve, há e haverá um Orfeu descendo ao inferno para buscar sua Eurídice. “


- João Ubaldo Ribeiro